# Crónica 1 de 2019 | Como gerir o medo da morte numa criança

Retomamos hoje os nossos temas de psicologia, com um tema que me é particularmente útil, o medo da morte. Recentemente este medo manifestou-se na Carolina. Tem apresentado sinais de ansiedade, e verbaliza facilmente quando falamos com ela sobre o tema, embora não tenha ainda conseguido gerir bem o tema e ainda mantenha o medo bastante presente. 
Falei com o Hugo sobre isso, e decidimos que devíamos partilhar convosco algo mais sobre estes medos. Hoje sou eu que lido com os medos da Carolina, mas um dia destes qualquer um(a) de vós que me lê que poderá necessitar de o fazer com as crianças lá de casa. Vamos lá então analisar este tema!

Na idade dos 6-7 anos a criança passa, em termos piagetianos, para o estágio operatório concreto, ou seja, compreende a reversibilidade das operações e, implicitamente, confronta-se, igualmente, com a irreversibilidade. 
Assim, a criança atinge o conceito de finitude da vida e confronta-se com a existência da morte. 
Até então, a morte era uma viagem ou uma estrela no céu, mas algo como que temporário, na sua percepção em crescimento. Este confronto cognitivo, traz uma angústia que a criança ainda não sabe gerir, e na verdade é o maior desafio de todos nós: o medo da morte. 
Deste modo, com frequência a criança começa a perguntar se a mãe ou o pai vão morrer, ou os avós, ou os irmãos, ou seja, as pessoas significativas na vida dela, e mesmo se ela própria vai morrer. Por vezes, este estado de alerta “eu vou morrer”, repete-se e acaba por ser como um interruptor da atenção que tende a ligar-se repetidas vezes e a causar sofrimento interno. 
Nestes momentos, existem algumas estratégias que se podem usar para ajudar a criança a ultrapassar esta fase de vida e de forma a não deixar marcas. 
Dicas para os pais ajudarem os filhos a ultrapassar o medo da morte: 
1. Olhar para dentro 
Em primeiro lugar, é importante todos nós olharmos para dentro, nestes momentos de ajuda, e observarmos como é que nós próprios lidamos com o medo de morrer. 
A forma como nós gerimos o tema será modelada e transmitida às crianças, mesmo que inconscientemente. 
Assim, se este tema for difícil pessoalmente de ser pensado ou abordado, será relevante o adulto pedir ajuda a outro par (a outro adulto) para, em primeiro lugar, enfrentar as suas dificuldades. 
2. Conversar com a criança sobre a morte 
Socialmente a tendência é maioritariamente a de evitar temas difíceis. Deste modo, a estratégia mais frequente, face à temática da morte, é contornar e adiar. 
Contudo, nesta situação, onde a criança se está a confrontar com o tema, será relevante conversar-se. 
Assim, fale sobre o tema intencionalmente com o seu filho(a). 
3. A morte é natural 
Quando conversar sobre a morte com a criança, escolha versões em que acredita e que usa para si para gerir a angústia face ao tema. 
Uma sugestão é falar sobre a morte como algo natural, que acontece com todos os seres vivos. Pode dar exemplos de mortes como a duma planta ou de um animal, que quase de certeza que a criança já observou. Pode igualmente falar da vida e dos ciclos da vida, numa perspectiva mais científica. 
4. A morte e a “imortalidade” 
A outra visão, que nos ajuda a gerir a nossa finitude é a espiritualidade ou a metafísica. Nesta narrativa, onde existe um Deus e um céu, onde existe um Buda e uma iluminação, ou onde existe uma humanidade e um conjunto de valores sociais e colectivos em relação aos quais vale a pena viver, transmite-nos uma sensação de imortalidade, seja pelo conceito de alma, de reencarnação ou de legado e marcas que perduram (como uma pintura ou uma música). 
5. O medo de morrer é natural 
Depois de conversar sobre a morte é altura de abordar o tema medo. Assim como a morte é natural, também o é o medo de morrer. Aliás, estamos “equipados” biologicamente para preservar a nossa vida, com os mecanismos nervosos, a dor, os reflexos, e o medo, entre outros. 
O medo tem a função de evitar algo que é potencialmente negativo. Assim, o medo de morrer tem como objectivo evitar a morte, ou seja, proteger a vida e prolongá-la o mais possível, com bem-estar e felicidade. 
Deste modo, medo de morrer é natural. 
6. Como lidar com o medo 
Há várias estratégias para lidar com o medo e a criança pode aproveitar a oportunidade para aprender novas formas de gerir esta emoção. 
Recordo que o medo é natural e que todos nós, felizmente, temos medo, e que este se vence com coragem e crescimento. 
Uma das formas simples é através do desenho, onde a representação gráfica permite o simbolismo do medo. 
Outra forma é através do criar uma história ou uma narrativa, ou mesmo escolhendo uma história conhecida (por exemplo, o medo do lobo mau que os três porquinhos tinham e como o enfrentaram), e retirar algo a partir daí, que pode ser ritualizado (por exemplo, pode-se criar estratégias de construir uma casa de tijolos interna contra o medo). 
O lúdico ou a brincadeira é outra técnica através do qual se pode chegar à gestão deste estado emocional. O faz-de-conta ou o simbolismo do brincar são formas que a criança tem de aprender e crescer por dentro. 
Por fim, a meditação para crianças é algo que se usa com frequência e já existem apps e vídeos disponíveis de forma gratuita. Basta pesquisar. 
Perante isto tudo, se o medo perdurar, o indicado é mesmo a consulta de um especialista. Os psicólogos costumam trabalhar estes casos em consultório de forma simples e com bons resultados. 
Abraço, 
Hugo Santos, Psicólogo 

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