Fugir dos nossos filhos

Fugir dos nossos filhos
A expressão é dura mas a verdade é que com toda a certeza todas nós já sentimos um dia a necessidade urgente de fugir dos nossos filhos. Isso não faz com que sejamos más mães, com que gostemos menos dos nossos filhos ou com que estejamos a cometer um crime. Faz-nos apenas humanas.

No último fim de semana de Fevereiro, pela primeira vez, fugimos dos nossos filhos. Não foi uma decisão conjunta mas uma decisão minha tomada por impulso e de que me arrependi quase no momento. Algures em Novembro passado, após receber uma newsletter por email sobre uma promoção de vôos de uma companhia aérea, decidi explorar o site da companhia e quando dei por mim tinha comprado dois bilhetes de avião. Decidi sozinha que precisávamos de fugir dos nossos filhos. Andei umas semanas a vacilar entre ter tomado ou não a decisão correcta, e entretanto chegou o Natal e o presente de Natal apareceu. A minha primeira frase foi: “ainda podemos comprar mais dois bilhetes para eles irem também…“, mas a resposta foi imediata e negativa. Se é para irmos os dois, vamos os dois!

Eu sei que sou uma mãe muito emocional, que me arrependi de ter comprado só dois bilhetes logo uns minutos depois da compra, e estive sempre com uma grande dualidade de sentimentos até ao momento da partida. Racionalmente, sabia que precisávamos de fugir dos nossos filhos, emocionalmente não me conseguia ver a viajar para fora do país sem eless. Sentia uma espécie de culpa cega por poder tirar uns dias da rotina e da aceleração gigante dos dias e deixá-los cá, entregues aos avós, na sua rotina normal.

Fugir dos nossos filhos

Claro que nestas coisas nem há balanço a fazer entre o racional e o emocional. A decisão foi tomada portanto não há nada a fazer senão assumir. O dia chegou e depois de os levarmos à escola fomos despachar para seguir para o aeroporto. Depois das despedidas ao portão da escola já só me via a embarcar. Já imaginava cada rua que planeava percorrer, cada local que tinha decidido visitar. Foram só 4 dias (3 noites) e passaram a voar. Passeámos imenso e sem horários nem rotinas é tudo tão mais simples.

Depois desta nossa fuga, e apenas uns dias depois do regresso, consegui pela primeira vez tomar consciência de que o maior cansaço depois de termos filhos é exactamente o cansaço da rotina. O facto de termos sempre quem dependa de nós, de nos sentirmos na obrigação de conseguir fazer tudo, sem falhar, sem desiludir, sem deixar nada para trás. Um cansaço que não se cura com as férias comuns, em que estamos em família, mas que apesar de não terem parte da nossa rotina do dia a dia têm na mesma obrigações, horários, limitações impostas pelos mais pequenos. Um cansaço que se atenua apenas ao fugir dos nossos filhos.

Só quando uns dias depois do regresso tomei consciência que nessa semana estava a conseguir ter mais energia ao acordar, sair da cama logo que toca o despertador e no global sentir-me menos sobrecarregada com a rotina é que percebi o peso que tiveram estes dias sem filhos no descanso mental.

Sempre ouvi dizer que uns dias sem filhos fazem falta, que fazem bem, que ajudam, e racionalmente sempre concordei, mas o meu lado emocional nunca me deixou testar a eficácia deste fugir dos nossos filhos. Agora que experimentei e percebi o quanto me recarregou as baterias, gostava de o poder fazer a cada 3 meses. Tenho a certeza que conseguira ser melhor mãe, melhor mulher, melhor esposa.

Desse lado, alguém costuma fugir regularmente dos filhos? Com que periodicidade? Que efeitos sentem que isso tem em vocês?

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